Sidadania

A Sida sem complexos

17.9.08

Sidoso #6, Trainspotting

Publicada por alex |

Fui-me esquecendo da heroina, voltei ao prazer do fumo do sg filtro e dos charros. Comecei a ganhar cada vez mais autonomia e alguma confiança da minha mãe, até porque não consigo mesmo beber álcool e pareço muito satisfeito por voltar a fumar ganza atrás de ganza. Isso e o clube de vídeo primeiro, a tv por cabo depois, são a minha vida. A expo vai e vem, o tempo passa e eu sempre na mesma, medicação para a toxoplasmose sempre, sem falha. Para o VIH nada.
Consciente que tenho pouco tempo de vida, tento resolver umas pontas pendentes, restos de uma juventude um pouco irrequieta. E descubro da pior forma que a palavra SIDA assusta mesmo. Fica a minha consciência tranquila com uma ponta pendente, não se pode ter tudo.

Entretanto...
Sinto-me cada vez mais como o Obélix:
-Panoramix, sinto-me tão fraquinho...
-É como um vazio aqui...

Um casal amigo, ela desde sempre, ele desde o fim da adolescência, meus vizinhos e também seropositivos faziam o que podiam para me tentar tirar do torpor sem muito sucesso. E no entanto, o seu exemplo era formidável. Ex-toxicodependentes, tinham conseguido reconstruir a vida. Emprego, casa própria, carro, saúde, tv e maquina de lavar, o poema todo. Mas eu não sabia o que era pior. Estar ali fechado com pena de mim ou voltar a enfrentar a vida e as suas responsabilidades e todos os bla, bla, bla inerentes como eles faziam. E eu estava fora das probabilidades a favor nos meus cálculos. Não era entrar em campo derrotado. Eu recusava-me a jogar.
Tudo isso mudou no principio de um verão. Eles convidaram-me a acompanha-los numas mini-ferias a Ceuta. Eu sentia-me já mesmo muito fraco e pensei que poderia ser bem a ultima oportunidade de conhecer Marrocos...ou pelo menos, algo parecido. Foi um suplicio para todos. Apanhamos um Junho muito quente e eu passei a viagem toda cheio de febres, doido com o calor de dia, desesperado com frio à noite. Sempre com um humor de cão espancado que nada fazia por melhorar a situação. Mas uma noite percebi, finalmente!
A diferença entre estar ali a tremer no saco cama e a possibilidade de poder estar a apreciar a noite na Andaluzia eram aquela meia dúzia de comprimidos que eles tomavam diariamente. Eu estava errado, eu podia vencer aquilo!
Quando chegar a Lisboa, vou começar a ser seguido e a tomar os anti-retrovirais. Vou dar a volta a isto.
Era tarde de mais....Ou quase.
Eu comecei realmente a tratar de ser seguido, mas a romaria médico de família - credencial - receber credencial - marcar consulta no Hospital leva o seu tempo e no fim de Julho a minha mãe, alarmada com o meu estado, pede à mãe do meu filho para nos acompanhar às urgências do S. José. Eu já não notava esses pequenos sinais reveladores da gravidade do assunto. Deve fazer um calor de estalar pedra lá fora e eu estou a tremer de frio dentro do meu casacão militar, sentado na sala de espera do Hospital. Não penso na morte. Aliás, não consigo pensar em mais nada senão ir para casa dormir, mas não tenho forças para enfrentar a minha mãe que ainda por cima se precaveu trazendo a Ana. Deixo-me vaguear mentalmente por S. José. Como qualquer alfacinha daquela zona da cidade, conheço-o bem e desde sempre. Bzzzzzz, os seus azulejos, bzzzzz, as escadas de pedra, bzzzzz, as de ferro, bzzzzz, o eco dos passos nos longos e altos corredores....bzzzzz.
Finalmente estou sentado à frente de uma médica que lê o resultado dos meus exames. Eu sou neutro, nada do que ela possa dizer me vai afectar. Eu só preciso de dormir, isto já passa...
...Tendo em conta o resultado dos seus primeiros exames, achávamos melhor ser internado. Você quer?
Eu, vendo a oportunidade para me escapar dali respondo bem disposto:
-Beeem, se isso é opcional:
Não!
Imediatamente chegam-me choros, fungadelas e suplicas vindos de trás de mim.
-Alexandre, tu não podes ir para casa...
-Pensa no teu filho...
Virei-me para traz a pensar -Mas elas estão mesmo a falar a sério... e isto vai estragar as férias, deixa lá ver, elas estão mesmo a sério?
Estavam.
De qualquer forma uma lágrima de uma delas tinha sido argumento suficiente e aquilo arriscava em tornar-se uma cena de Opera muito rapidamente. Nunca as tinha visto assim.
-Tchééé, o que para ai vai, ok, ok....
Virei-me para a frente, resignado mas ainda bem disposto:
-Bom, tá bem. Mas ninguém me tira a minha pulseira de cabedal do tornozelo.
Passei as horas seguintes a explicar, a ameaçar e a seduzir cada novo turno de enfermeiros que entrava porque é que NÃO me iam tirar a pulseira. Sabia que passando o S.O. a coisa tava safa, era só não baixar a guarda. E assim foi. A pulseira subiu comigo à enfermaria. Ela, eu e a minha teimosia. Mas sempre muito bem disposto.
Uns dias mais tarde o chefe da equipa medica vem falar comigo. Gosto dele, é um tipo bem disposto. Eu também continuo muito bem disposto e sinto-me melhor.
Ele pergunta-me se eu sei o que o que são CD4. Nessa altura já sabia.
-Você entrou aqui com 4.
Tinha feito bem em ter trazido a teimosia.
A pulseira? Partiu-se com o uso há já muito tempo.

2 comentários:

mié disse...

Gosto...muito.

Primeiro de tudo obrigada pelas palavras que me dás ali ao lado.

Uma óptima iniciativa este teu blog

...parafraseando Lavoisier que não falava de palavras juntas mas de experiências...pessoais e de química, "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma" .

Não terá tudo o mesmo ciclo?
A imortalidade não será isso?

...um óptimo augúrio para o sidoso#.

Abraço enorme

2 beijos e afagos no pêlo.

doisolhinhos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
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