Sidadania

A Sida sem complexos

17.9.08

Sidoso #5, NO FUTURE!

Publicada por alex |

Esta parte é complicada de escrever.
Não porque seja dolorosa de recordar. É complicado é por tudo pela ordem certa. Tenho é que misturar a lógica com o amontoado de recordações difusas deste período com cerca de 3 anos. Na sua maioria é um longo nada, sou eu em casa à espera da morte. Pelo meio, sempre os meios, dão-se alguns acontecimentos que irão determinar todo o meu futuro como seropositivo.
Complicado, porque eu na altura não conseguia ver nenhum.
Nunca consegui perceber se sou realmente muito traumatizado pelo facto de estar infectado, porque nunca consigo ultrapassar completamente o facto de ter ficado deficiente. A sida foi-se tornando na minha arma de arremesso, no veiculo da minha revolta. Vazio, gritava gritos mudos. Não procurei ajuda, não procurei saber, não havia rumo, cura, regresso.
Primeiro deixei a fisioterapia, fiquei farto de ver as melhoras dos outros.
Como já mencionei, na altura o Hospital dos Capuchos não tinha a especialidade de infecciologia. Foi o chefe da equipa responsável pelo meu internamento que durante os primeiros tempos me passava as receitas para os anti-retrovirais. Sem consulta. Eu ia ter com ele e onde o apanhasse, ele passava-me as receitas. Um dia disse que eram as ultimas, eu tinha de arranjar um médico especialista e ser seguido por ele.
Eu pura e simplesmente deixei de tomar a medicação anti-retroviral e continuei a tratar fielmente a minha infecção cerebral de estimação. Deve ser um dos sintomas iniciais da doença a parvoíce aguda. Ou eu já era um grande parvo e a doença apenas realçou esse facto. Eu ia morrer, tinha a certeza, mas continuava a prevenir-me com fervor daquilo que me tinham apresentado como maior ameaça. E nem assim o fazia correctamente. Um dos efeitos secundários do medicamento para a toxoplasmose é a anemia. Deve ser acompanhado por um bom tratamento vitamínico. Ora eu já tomava químicos a mais e ia morrer, de qualquer forma. Tão a perceber a lógica? Nem eu.
O resultado pratico é que eu, com o organismo ainda todo muito debilitado, deixei de prevenir uma doença que me ataca o sistema imunitário e tomava sem qualquer compensação um medicamento que me provocava anemia. Como é santa, a ignorância. Como é feliz, o ignorante.
Quando saia, tinha cada vez mais umas coisas que eu apelidava no gozo de ataques de sida. Era como se fosse desligado, sem a pilha, sem corrente, power off...Uma sensação de cansaço...Pfffff.
Depois passavam.
Parvalhão! Ataques de sida?
Mas eu já tinha visto o meu destino, ou não?
Uma noite, poucos meses depois de ter alta um amigo da família levou-me à Abraço, no Bairro Alto. Deixou-me lá e foi-se embora. Eu tenho a noção que nessa altura era um farrapo. Andava com dificuldade, ainda não dominava muito bem todos os músculos da cara (ainda me faltam um ou dois, hoje em dia) e tinha perdido qualquer brio na minha pessoa em publico. À entrada, depois de coxear as escadas, recebe-me o olhar frio, desagradável, antipático de uma voluntária que cruzo sem nos falarmos. Na sala, vazia, as luzes baixas e o silencio sentado nos sofás faziam-me lembrar a casa de um bacano qualquer no meio de uma sessão de coca. Só faltavam os actores porque o cenário estava lá todo. Num dos lados da sala fica um pequeno nicho transformado em escritório/recepção. Atrás de uma velha secretária de madeira, iluminado por um clássico candeeiro de mola, está um rapaz que reconheço imediatamente de um artigo de revista que tinha lido antes de saber que estava infectado. Seropositivo, tinha feito parte de um artigo de contornos inéditos em Portugal onde vários seropositivos davam a cara, alguns com a mulher ou marido, um familiar ou amigo. Não vou fazer grandes juízos ou considerações sobre a pessoa. Anos mais tarde, ao falar com quem ocupava o lugar dele, explicaram-me que a Abraço reconhecia o erro de ter aquela pessoa, naquele lugar, naquela altura. Também não acho correcto ser muito descritivo sobre a nossa entrevista pessoal. Porque o foi nos dois sentidos.
Eu não gostei do que me contou sobre ele, mas não foi desagradável ou antipático. Creio que foi ele próprio. E não me mentiu, não me enganou, nem falsas esperanças. Nem falsas nem de outro tipo qualquer. Só me confirmou as portas fechadas, não havia janelas. Não era um Aguente-se! -Faça-se a vida! Era apenas Aguente-se!
Durante muito tempo acusei a Abraço de ter contribuído para a minha certeza em como estava condenado. Sei agora que fui injusto. Eu esperava encontrar deus, um milagre, A solução e apenas encontrei uma equipa mal preparada para receber casos como o meu.
Depois da nossa entrevista ele leva-me para a outra sala da casa, onde ia começar uma reunião de auto-ajuda e vai-se embora. Para quem não sabe, a ideia das reuniões de auto-ajuda é por na mesma sala um pequeno nº de seropositivos que discutem sobre a doença, trocam experiências, informações, etc. Mas não é mandar 6 ou 7 sidosos para uma sala e dizer-lhes para falarem. Deve haver um moderador, alguém sensível ao facto de haver diversas fases e faces da doença presentes na sala. E ao meu lado está uma rapariga que me conta já ter perdido um bebé e o marido com SIDA e a sala é horrível, pequena e fechada e suada e ela tem realmente um ar de sidosa katé assusta e os outros também tem um ar doentio pra caroço e eu tou pior que eles todos juntos. E as historias eram horríveis e cada uma pior que a outra. Assim que posso fujo dali. Acompanha-me um deles até uma tasca ali no largo da santa casa. Tem um discurso homofóbico muito estranho e oiço falar pela primeira vez em sidosos de 1ª e 2ª. Peço uma mini e descubro que não a consigo beber em tempo útil.

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