Sidadania

A Sida sem complexos

17.9.08

Sidoso #4, Anywhere I lay my head...

Publicada por alex |

Na terceira semana, já estava a fazer fisioterapia. A distancia já não me deixa ter muitas certezas, lembro-me que me levavam de cadeira de rodas e essa era a parte divertida.
Estava completamente a zero e sentia-me um zero. Tinha que repensar tudo e não tinha nada a que me agarrar. Vinha-me à memória não frases batidas mas aquelas conversas de fim-de-noite, já bem fumadas, sobre o que fazia se me visse agarrado a uma cama. A ideia "carta branca" começou a formar-se por essa altura. A coisa era complicada. Eu não tinha morrido mas ia morrer, não estava agarrado à cama mas estava completamente dependente de terceiros. Viver era um incómodo constante.
Regressar a casa não foi tão agradável como pensei que seria. Pela primeira vez, não me sentia em casa. No lar, reconfortado.
Assim que cheguei, toca o telefone. Era para mim. Sentei-me no sofá para atender e a minha mãe encostou-se à ombreira da porta a olhar para mim. Ela conhecia todos os meus amigos. E a mim...
Era o Miguel.
-Tão, soube hoje que tavas no hospital. Já tiveste alta, é?
E eu: "Han , han ..."
-Tão tás melhor? Pá, anda cá a casa dar um fumo e contas-me isso.
"Eeerh ..."
-Estamos à vontade, os meus velhos não estão cá, eu recebi, não queres vir?
Pá, eu ir ai é que não vai dar, tou bué cansado, o dia todo a bulir, sabes como é.
"B'gado Miguel, fica para outra vez, eu também tou cansado."
-Pá, tu é que sabes, vá, fica bem.
Desliguei o telefone. olhei para a minha mãe e estiquei o braço para ela:
-Não me olhes assim, nem sou capaz de me levantar daqui sem a tua ajuda quanto mais...
Mas aquele convite tinha feito um estrago enorme. Saber que o paraíso estava à minha disposição a 300 metros de distancia quando eu mal me conseguia arrastar até lá acima ao quarto era uma informação que tinha dispensado.
E não ia dormir no meu quarto. Por razões que nunca consegui esclarecer bem um dos vidros de uma janela estava partido. Faltam testemunhas e memória minha, fica o buraco. Como os estores também já não desciam há muito tempo, não podia dormir ali.
Tinha de dormir no meu antigo quarto, que tinha passado a ser o do meu filho e agora estava vazio. Puseram o colchão encostado à parede fronteira à janela, fizeram-me a cama e arranjaram-me um penico. Fez-me lembrar um pouco "A metamorfose" do Kafka , mas não havia a carga negativa da família , bem pelo contrário. Eu adorava aquele quarto, sempre tinha sido o "meu" quarto, até há pouco tempo. Mas agora parecia-me noutro tempo, outro quarto. E eu dormia com o colchão no chão desde os 14/15 anos, não achava piada nenhuma a camas.
Mas agora, depois de 3 semanas de cama de hospital com grades subidas, estar tão perto do chão era uma sensação desconfortável . Como quase tudo. Menos uma, de certeza.
A fisioterapia tinha-me mostrado uma carência difícil de saciar:
O tacto humano. O contacto com outra pessoa. Sentir o seu corpo com o meu.
Era ar e água. Era viver.
Tinha fome de pele!
Mas tinha de matar 4 anos e pelo meio quase morrer outra vez até conhecer alguém que tinha um nome para o que me atormentava.

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