Sidadania

A Sida sem complexos

17.9.08

Sidoso #3, Bemvindo ao clube...

Publicada por alex |


Os resultados não chegaram. Tinha havido um erro e foi necessário repeti-los. Esta explicação accionou um alarme lá no fundo. Mas muito no fundo, porquê eu sou o alex e tenho sempre uma sorte do caraças nos azares em que me meto.
Ao fim de semana e meia de internamento, já tinha percebido que girava tudo à volta de ter ou não sida.
Mas o resto não vazia sentido, ainda não sabia que todos os meus sintomas se encaixavam perfeitamente num diagnóstico:
Toxicodependente com Sindroma de Imuno Deficiência Adquirida, vulgarmente conhecido por Sidoso.
O Sr. Dr. pôs-se de cócoras à minha cabeceira e lá me segredou a sentença. O primeiro teste tinha dado positivo, o segundo tinha sido para confirmar. Eu mordi os lábios e perguntei-lhe quanto tempo tinha. A resposta diplomata e cheia de lugares comuns , entrou-me a 100, saiu a duzentos e para mim apenas significava uma coisa:
Estás fodido!
Esperei até a minha mãe chegar, para podermos chorar aquilo tudo de uma vez por todas.
Eu tinha contraído toxoplasmose cerebral, devido à falência do meu sistema imunitário , traído pelo vih . Também tinha hepatite C, mas não estava activa. Havia mais umas coisitas, mas nada que não se resolvesse.
O problema maior eram as consequências da toxoplasmose . Esta é uma infecção comum nos seres humanos, que normalmente conseguem desenvolver anticorpos contra ela. A não ser nos casos em que o sistema imunitário esteja débil , como no caso das grávidas , de cancro ou vih /sida, por exemplo. A minha infecção foi no cérebro , no lado direito. Deve ter achado que o espaço estava desocupado. A minha dor de cabeça era uma bola de pus com o diâmetro de uma toranja. O meu cérebro estava a desfazer-se e no processo as comunicações com o braço, perna e face esquerda foram afectadas com severidade. E ainda ressacava. Começava uma ultima semana de inferno, desta vez já com os sentidos bem despertos . Com a merda toda a bater-me na cara. Não conseguia dormir, a almofada parecia-me um tijolo. Ensopava ambos os lençóis a ponto de pedir às enfermeiras de serviço durante a noite para os trocarem . Já fartas das minhas eternas reclamações, tinha que os torcer até pingarem para lhes provar que não exagerava. Mesmo assim, trocavam sempre um apenas.
Uma manhã perguntei a uma porque não me davam Morfex ? Tinha a certeza que isso me iria por a dormir. Ao que ela me respondeu que era o que eu tomava desde o 1º dia. Balbuciei, atrapalhado: "Bom, então deviam aumentar-me a dose, não?"
Não tinha apetite e a comida não sabia a nada, o tabaco tinha um gosto horrível . Pedi papel e lápis , tentei fazer um "smile " e...percebi, com muita raiva minha, que nada seria como dantes.

0 comentários:

Subscribe