Sidadania

A Sida sem complexos

10.9.08

Sidoso #2, Koma: :Kino

Publicada por alex |

(...)"Wake Up! You can't remember where it was
Had this dream stopped?

Shake dreams from your hair
My pretty child, my sweet one.
Choose the day and choose the sign of your day
The day's divinity
-------------------First thing you see."(...)
Ghost Song - The Doors/Jim Morrison

Sou levado ao colo. Como uma criança. E é assim que me sinto, leve como uma criança.
Sonho e sonho que sou de novo criança ou estou apenas leve como uma criança e não sonho, sou carregado?

Não houve um acordar, um momento preciso.
Fui acordando, um submarino que emerge de um mar de....sonhos?
E de pesadelos. E de alucinações. As alucinações ainda hoje acho piada. Das que me lembro.
Não me lembro de perguntar insistentemente por "x" e "y" pessoas à minha mãe.
"Porque não entram eles?", perguntava eu.
"Mas não veio ninguém comigo", respondia a minha mãe.
"Vieram sim, eu vi-os lá fora no corredor!"
Das que me lembro a minha mãe achava menos piada ainda. Era quando me encontrava sentado no meio da cama, a olhar para o tecto, de braço esticado a apalpar o ar, sorriso de demente na cara retorcida.
Era a felicidade do vegetal, e eu sei exactamente o que me fascinava nesses momentos:
Eram as serpentinas coloridas que saiam dos detectores de incendio como se estivessem presas a uma ventoinha, estavam mesmo ali, ao alcance da mão. E os ferros pendurados nos suportes da cortina que cada cama tem. Esses dançavam para mim, mas fugiam quando os tentava agarrar.
Dos pesadelos, não tinha. Era.
Não sei quando me amarraram à cama com ligaduras, mas sei porque o fizeram.
Já não havia dores, sono, sonhos, real ou fantasia, o meu cérebro desligou tudo o que podia desligar menos uma coisa. Uma ideia. Fixa.
"Estou a ressacar, isto é tudo a ressaca. Tenho de sair daqui!"
Pensava e gritava-o. E fazia-o.
...Ou tentava.
Fartas de me apanhar do chão, as enfermeiras amarraram-me.
Mas não sabiam com quem se estavam a meter, lembro-me de pensar e com os dentes desamarrar uma mão, com essa mão desamarrar a outra, agarrar-me às protecções laterais da cama que estavam subidas, rolar sobre elas e Pum, Catrapum! Estatelado mais uma vez no chão, arrastando os adereços todos atrás, soro para um lado, medicação para o outro, eu semi enfiado debaixo da cama do vizinho, nariz virado para a arrastadeira.

Quando comecei a perceber que não ia a lado nenhum sozinho a culpa era inicialmente das enfermeiras. Tinham-me amarrado e agora estava tão dormente que não conseguia andar. As malvadas!
Logo me desenganei. Algo estava errado. Não era apenas o braço e a perna esquerda que eu não conseguia mexer. A face desse lado também estava rígida, babava-me descontroladamente e notava agora, mal era capaz de falar.

A explicação médica era um longo:
"Bla bla bla bla bla, fizemos uma bateria de exames, estamos à espera dos resultados, bla bla bla..."
Sim, esperemos os resultados.
Venham de lá, esses resultados!

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