Sidadania

A Sida sem complexos

3.2.08

Sidoso #1 - Passover

Publicada por alex |


iNFECTADO por Joy DivisioN
dOENÇA oPURTUNISTA por Anton Corbijn




"This is the crises I knew had to come
---------------Destroying the balance I'd kept
----------------------Doubting and settling and turning around
-------------------------------Wondering what will come next."(...)
Passover - Joy Division

Do que me consigo lembrar, lembro-me bem.
O meu ultimo dia neste planeta como normalóide.
Já ia atrasado mas não era isso que me aborrecia.
Por mais que consumisse, a ressaca não passava. Pelo contrario, parecia que a aumentava.
Da pedra que esperava, só tinha os vómitos. E aquela dor de cabeça que não passava. Nunca.
Acordava com ela, adormecia com ela. Não havia fumo ou caldo que a acalmasse.
Minto, já nem dormir me deixava. E também não andava acordado. Vagueava entre uma dor aguda e uma dor quase suportavel, mas sempre a dor.
Ia atrasado, mas não era isso que me aborrecia. Tinha acabado de fumar uns bons traços no vestiário e sentia-me ainda pior. Também sabia que parecia como me sentia.
Para o confirmar, um parvo de um revisor passou por mim e só conseguiu dizer: "Mas que grande pedra que tu tens". Sei que lhe resmunguei algo entre dentes, mas o quê, não me lembro. Sei que pensei "quem me dera".
Finalmente, o fim do cais. Também era o fim da linha para mim, mas ainda não o sabia.
O comboio era o Intercidades para o Porto. A minha primeira função naquele turno, apertar o sem-fim do elo que une as carruagens entre si e ligar os tubos de ar comprimido dos travões. Lancei-me para debaixo da carruagem, disposto a cumprir o meu trabalho. Impossivel. Como uma mola, assim que toquei com os pés o fundo do poço, subi novamente para o cais e entrei como um relâmpago para a carruagem. Fechei a porta dos lavabos a tempo de me vomitar todo. Aquilo não era pedra, não era ressaca. Oh que mal que eu me sentia.
"Kékeu-tenho, kékeu-tenho?"
Desci da carruagem mas não voltei a descer para baixo dela. Peguei no ultimo animo que tinha e fui direito ao gabinete do chefe da estação.
"Têm de arranjar alguem para me substituir, eu tenho de ir para casa que não me sinto bem"
Fiquei com a certeza que deveria parecer como me sentia, porque o homem, pouco dado a simpatias e obviamente, pouco popular entre nós, limitou-se a dizer com um ar preocupado (com o trabalho, com ele ...comigo?):
"Oh homem, se tem mesmo que ir, vá!"
E eu fui. Direitinho.
Ainda tinha alguma coisa no fundo do bolso. Amanhã logo se via.
Nunca saberei se fumei ou injectei.
Mas fosse o que fosse, resultou.
E eu adormeci, finalmente. Já não me doia nada.
Já nada me aborrecia.

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